terça-feira, 22 de outubro de 2013

'Nossos nomes foram ligados a algo ruim', diz supervisora do Royal no RS

Laboratório do Instituto Royal em Porto Alegre funciona dentro do CBiot, na UFRGS (Foto: Felipe Truda/G1)

A mudança na rotina do laboratório do Instituto Royal em Porto Alegre na tarde desta segunda-feira (21) era visível pelo receio dos funcionários do Centro de Biotecnologia (CBiot) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi o primeiro dia de trabalho após o local ter sido fechado devido à invasão da sede de São Roque, no interior de São Paulo.
A reportagem do G1 foi recebida no final da tarde pela supervisora científica de estudos da unidade que presta serviços ao Instituto Royal, Miriana Machado. A conversa ocorreu em uma sala do prédio da Incubadora Empresarial do CBiot, centro de apoio a empresas que buscam a
inovação científica, localizada no Campus do Vale da UFRGS, uma área extensa próxima à divisa com Viamão, na Região Metropolitana. A entrada no laboratório não foi permitida por "questões de sigilo".
Miriana pediu para não ser fotografada, pois teme represálias. Ela ainda lembra-se de um cartaz exibido por manifestantes em frente à sede do CBiot na última sexta-feira (18). Na madrugada do mesmo dia, um grupo de ativistas invadiu a sede do Instituto Royal em São Roque, no interior de São Paulo, e levou 178 cães do local. Os animais eram utilizados em pesquisas. Em Porto Alegre, grupos realizaram manifestações na sexta e no sábado (19).
"Na sexta-feira, o meu nome e o de uma colega estavam em um cartaz, com os dizeres 'vamos pegar elas'. Nossos nomes foram ligados a algo ruim e errado de graça", lamentou Miriana, deixando claro que as críticas são direcionadas aos protestos, pois acredita na importância do trabalho do instituto tanto na sede gaúcha quanto na paulista. Segundo a pesquisadora, as hostilidades não se restringiram a cartazes. "Recebemos diversas ligações com ameaças", disse.
O diretor do Centro de Biotecnologia da UFRGS, Arthur Germano Fett, afirma que mesmo durante o final de semana alguns trabalhos foram impedidos de serem realizados no centro. Segundo ele, não é a primeira vez que o CBiot é ameaçado.
"Em novembro de 2003, este centro foi incendiado. Foram quatro focos de incêndio criminoso, e os responsáveis nunca foram encontrados, porque eram feitos aqui testes com plantas transgênicas. Quase 10 anos depois, vivemos novamente este tipo de terrorismo", lamentou.
Sede gaúcha já usou animais em testes
Conforme Fett já havia dito ao G1, Miriana explicou não são realizados testes – ou ensaios, como ela se refere – com animais na sede gaúcha do Royal. O instituto atua no estado desde 2006, e a prática já foi adotada em Porto Alegre. "No início, sim, mas depois tudo foi trocado porque não era o objetivo", disse a pesquisadora.

Campus do Vale fica perto da divisa de Porto Alegre com Viamão (Foto: Felipe Truda/G1)
Campus do Vale fica perto da divisa de Porto Alegre com
Viamão (Foto: Luiza Carneiro/G1)
Questionada, não informou detalhes de como eram feitos estes testes. A assessoria de imprensa do instituto disse que por "razões estratégicas", a empresa não fornece este tipo de informação.
"Somos uma unidade especializada em métodos in vitro. Os ensaios pré-clínicos de medicamentos e cosméticosin vitro, até porque cosméticos agora é só in vitro, fazemos aqui em Porto Alegre", explicou a farmacêutica.
Todo o processo é tratado com sigilo, e os próprios funcionários não sabem para qual cliente – empresas de medicamentos e cosméticos – são os testes. O material é adquirido em um banco de células.
"Em vez de avaliar direto no organismo, se avalia em células isoladas em cultura, para ver os primeiros sinais de toxicidade. São células estabelecidas, que compramos de bancos de células, linhagens padronizadas", afirmou. "Também se pode fazer em linfócitos humanos, direto do sangue, mas não fazemos mais", disse.
Pesquisadora defende uso de animais
Apesar de garantir que animais não são usados pelo Royal em Porto Alegre, Miriana defende o procedimento. Farmacêutica, mestre em biologia molecular e doutora em bioquímica, ela garante que, ao menos na produção de medicamentos, testes com animais são imprescindíveis. Para ela, a criação de um método alternativo que torne o processo desnecessário é algo muito distante. Ao menos para medicamentos, pois para cosméticos já é possível.

"A literatura já mostra que, para medicamentos, vai ser muito difícil. Para cosméticos, vários já são possíveis de serem substituídos", declarou a supervisora. "A literatura mostra tudo isso. É só a pessoa ler", acrescentou.
Não é apenas a convicção na necessidade de uma prática atacada por manifestantes que fez a estudiosa lamentar o ataque ocorrido em São Roque. Segundo ela, a ação dos ativistas comprometeu um minucioso sistema de qualidade. “É lamentável um instituto desta seriedade ser invadido sem proteção e anos de trabalho serem postos fora”, declarou.
Segundo ela, o laboratório conta com um sistema de "rastreabilidade" – ou seja, toda ação feita lá é monitorada e catalogada. "Cada análise tem sua rastreabilidade, e isto foi posto fora", disse.
Fett garante que, enquanto o laboratório permanecer na Incubadora Empresarial, contará com o apoio total da universidade. "Vamos defender até o fim", garante.
Felipe TrudaDo G1 RS

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